Por meio do edital do governo do Maranhão, via Lei Aldir Blanc, muitos projetos que se encontravam engavetados puderam sair do papel. Entre eles “Solo de violino e outras histórias de medo”, primeiro livro de terror do escritor Wilson Marques. A obra, com capa assinada pelo ilustrador Luciano Tasso, reúne dez contos macabros voltados para o leitor jovem. “Publicar um livro com histórias do gênero é um sonho antigo que agora foi possível realizar”, comemora o escritor, cuja produção tem sido voltada, preferencialmente, para o público infantil.
Abre a coletânea o conto “O defunto da Recoleta”, ambientado
numa friorenta e soturna Buenos Aires, mais precisamente no Cemitério da
Recoleta, famosa necrópole da capital argentina. Segue-se “O escolhido”, narrativa
em que o protagonista tem um inusitado e fatídico encontro com um vizinho que,
para seu espanto, já passara desta para melhor. Em “Uma carta para Ana”, a
personagem é atraída para um destino terrível. Já em “O trailer”, talvez o
conto mais sinistro do livro, um lembrete de até onde as amizades podem chegar.
Segundo o autor, em geral as histórias tiveram como ponto de
partida experiências de infância, situações vividas em viagens ou episódios narrados
por terceiros. Mas, lembra, também serviu de inspiração narrativas da tradição
oral. Caso de “A Mãe d’Água” e “O carnaval dos mortos”.
"Solo de violino e outras histórias de medo" tem lançamento previsto para janeiro do próximo ano.
Tateando no breu acionei um interruptor e uma luz fraca e
amarelada banhou o recinto. Então o que vi me deixou chocado. Havia imundície
por todo canto. A poeira formava uma camada espessa sobre o chão. Roupas
estavam jogadas por todos os lados e tudo estava tão sujo e bagunçado que era
impossível algum ser vivo, que não fosse ratos e baratas, morar ali.
Aliás, por falar em ratos e baratas, havia alguns exemplares
quando entrei. Os ratos fugiram assim que bati o pé. Mas as baratas, que
infestavam uma bancada repleta de comida velha e podre, continuaram fervilhando
às centenas. Por fim, mais ao fundo, observei um freezer. Era uma peça grande,
que parecia fora de uso há muito tempo de tanta poeira que havia em cima. Mas
que continuava funcionando, como indicava o barulhinho constante e subterrâneo
de um motor.
Bem, pelo menos os garotos têm o que comer, eu pensei, e
embora este não fosse um gesto dos mais educados, me aproximei e ergui a tampa
para saber que tipo de alimento tinha lá dentro. O que vi, depois que a nuvem
glacial ergueu-se e dissipou-se, deixaria o pior dos assassinos de cabelos em
pé: um conjunto de cabeças, braços, pernas, pés, tudo decepado.